Gêmea trans que passou por cirurgia de readequação de sexo em SC fala sobre o futuro: 'Mal comecei minha luta'

Santa Catarina terça-feira, 16 de fevereiro de 2021 05h00min
Gêmea trans que passou por cirurgia de readequação de sexo em SC fala sobre o futuro:

Sofia, que recebeu alta no domingo, um dia após a irmã, diz que vai em busca da conquista dos seus direitos e do respeito da sociedade. Ela e a irmã fizeram procedimento na semana passada em Blumenau. Sofia Albuquerck é estudante de engenharia civil
Sofia Albuquerck/Arquivo Pessoal
Sofia Albuquerck, de 19 anos, se recupera bem da cirurgia de readequação de sexo que ela e a irmã gêmea, Mayla Phoebe de Rezende, realizaram em um hospital de Blumenau, no Vale do Itajaí. O sonho delas virou realidade, mas para Sofia, que fez o procedimento na quinta-feira (11), o caminho de lutas e de conquistas está apenas começando.
"Na verdade, mal comecei minha luta, eu ainda tenho que conquistar os meus direitos, o meu lugar na sociedade e o respeito dela. Eu quero deixar meu legado, quero ajudar pessoas, terminar minha faculdade, abrir minha própria empresa. Não adianta eu ter chegado até aqui e achar que acabou. Como papel de cidadã, eu ainda tenho muito coisa a fazer", disse a estudante de engenheira civil.
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Mayla e Sofia nasceram com o sexo biológico masculino e discutiam a transição para o feminino desde antes da maioridade. As gêmeas sabiam da possibilidade de fazer o procedimento desde criança. Elas passaram pela mamoplastia ano passado.
Os recursos para arcar com as despesas da cirurgia, feita pelo sistema privado, vieram do avô, que vendeu uma casa para conseguir o dinheiro.
"Quando saiu [a possibilidade de fazer cirurgia de] readequação sexual, eu falava, gente estou sonhando, eu não acreditava. Eu pensei que ia acordar e ficaria muito frustrada. Mas, quando a minha irmã fez, eu pensei: 'Amanhã sou eu! Amanhã acaba tudo isso, todo esse sofrimento'", disse.
Sofia conhece bem os desafios que ela e a irmã enfrentarão a partir de agora. A transfobia é um deles. O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo.
"Eu espero de coração que acabe isso. [Espero que] as pessoas comecem a ter mais empatia e compaixão por pessoas como a gente. Que empreguem mais pessoas como a gente, que abram mais portas [...] a gente merece ser feliz", afirma.
Elas são de Tapira, no interior de Minas Gerais, e devem retornar para casa em até o final do mês de fevereiro. Uma equipe médica segue monitorando diariamente a recuperação das jovens ainda em Blumenau. Depois, os médicos catarinenses devem indicar profissionais na região delas para continuidade do acompanhamento médico.
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Sofia Albuquerck/Arquivo Pessoal
'Nunca tive rejeição familiar'
A irmã de Sofia, Mayla Phoebe de Rezende, afirmou que as duas sempre tiveram apoio da família. "Nunca tive rejeição familiar. O medo dos pais não é de a gente ser quem a gente é, mas dos outros machucarem a gente", disse Mayla (assista ao vídeo abaixo).
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Cirurgia também está disponível no SUS
O procedimento também poder ser feito pelo Sistema Único de Saúde, mas existem algumas dificuldades. Dos cinco hospitais públicos brasileiros que prestam esse serviço, nenhum fica em Santa Catarina. A espera no país para iniciar o processo pode levar até cinco anos.
"Tem gente que não tem condições de pagar a cirurgia. Tem gente que se prostitui. Eu fico com pena dessas pessoas porque elas não tiveram a mesma oportunidade que eu tive de ter uma casa para vender e conseguir fazer a cirurgia. Acho que tinha que ser mais fácil para as pessoas conseguirem os seus direitos", conclui Sofia.
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Legislação
Conforme mostra o vídeo abaixo, em 2020 novas regras para a cirurgia de transição de gênero foram aprovadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). A resolução amplia o acesso à cirurgia e também ao atendimento básico para transgêneros.
A norma reduziu de 18 para 16 anos a idade mínima para o início de terapias hormonais e define regras para o uso de medicamentos para o bloqueio da puberdade. Procedimentos cirúrgicos envolvendo transição de gênero estão proibidos antes dos 18 anos. Antes era preciso esperar até os 21 anos.
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